Inatividade física e risco cardiovascular: reflexões para a quarentena

A doença do coronavírus 2019 (COVID-19) é uma doença infecciosa e com proporções pandêmicas, já tendo acometido mais do que 3 milhões de pessoas no mundo. A ausência de medidas preventivas ou terapêuticas específicas, em conjunto com a alta taxa de tranmissão do vírus, tem levado a recomendação de que todos os indivíduos devem permanecer em casa e procurar manter o distanciamento social. Por conter a transmissão do vírus, esta estratégia reduz a pressão sobre os sistemas de saúde, levando a um melhor manejo e controle do COVID-19. No entanto, esta estratégia trás importantes repercussões comportamentais e clínicas.

O isolamento social tende a causar profunda redução nos níveis de atividade física moderada a vigorosa. De fato, recentemente a Fitbit Inc., uma compania norte americana que desenvolve equipamentos (do tipo wearable) para monitorar o nível de atividade física, divulgou dados de atividade física de 30 milhões de usuários de todo o mundo, demonstrando redução expressiva (de 7 a 38%) no número de passos diários, entre os dias 16 e 22 de Março de 2020. Essa redução no nível de atividade física causada pelas medidas de controle do COVID-19 pode trazer repercussões substanciais pro sistema cardiovascular.

Desde a década de 50 já se sabe que a inatividade física está associada ao aumento dos riscos cardiovasculares. Naquela época, estudos clássicos conduzidos na Inglaterra verificaram maior mortalidade cardiovascular em profissões “inativas” (ex: motorista de ônibus ou trabalhadores de escritório) em comparação a profissões “mais ativas” (ex: carteiros ou cobradores de ônibus que subiam e desciam as escadas dos ônibus de 2 andares de Londres). Mais recentemente, este entendimento foi aprimorado por meio de estudos que observaram que poucos dias de inatividade física já são capazes de promover alterações negativas na função contrátil do coração, remodelamento dos vasos e piora dos marcadores de risco cardiovascilar. Com o tempo, esses efeitos se somam, pavimentando o caminho para a instalação das doenças cardiovasculares.

Dada a relação entre inatividade física e risco cardiovascular, é de extrema importância que a população tente aumentar o seu nível de atividade física durante o período de quarentena. Isto é possível por meio da realização de atividades físicas no ambiente domiciliar. Diversos estudos tem demonstrando o benefício de atividades simples, tais como caminhar em casa, pedalar em bicicleta ergométrica, subir escadas, dançar, realizar exercícios com o peso do corpo, dentre outras, sobre o condicionamento físico, a saúde geral e cardiovascular. Estas atividades devem ser realizadas por toda a população, desde crianças e adolescentes, até adultos e idosos. Nas pessoas que tenham risco cardiovascular aumentado, isto deve ser feito de maneira

mais branda e progressiva, e sempre com atenção aos sinais do corpo.

Prof. Dr. Tiago Peçanha – Profissional de Educação Física. Pesquisador e Pós-doutorando do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da USP.

Pós-doutorando no Research Institute for Sport and Exercise Sciences da Liverpool John Moores University, UK.

Consultor da Clínica Move

Contato: pecanhatiago@gmail.com  Twitter: https://twitter.com/tiagopecanha