Cidades ativas são mais saudáveis

Tiago Peçanha – Profissional de Educação Física. Pesquisador e Pós-doutorando do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da USP. Pós-doutorando no Research Institute for Sport and Exercise Sciences da Liverpool John Moores University, UK.

Contato: pecanhatiago@gmail.com      Twitter: https://twitter.com/tiagopecanha

 

A inatividade física é um dos principais fatores de risco modificáveis para o surgimento de doenças crônicas não-transmissíveis, que são as principais causas de morte no mundo. Estima-se que 30 a 40% da população mundial não atinja as recomendações de atividade física da Organização Mundial de Saúde, sendo que esta proporção é ainda maior em adolescentes e idosos. Além de aumentar a morbimortalidade da população, a inatividade também trás impactos econômicos importantes, com estimativas que possa gerar um custo de mais de 50 bilhões de dólares por ano aos sistemas de saúde.

Diversos fatores contribuem para os baixos níveis de atividade física da população, e um aspecto que tem sido muito discutido nos últimos anos é a importância do ambiente construído. O ambiente constuído se refere aos ambientes feitos pelo homem e que dão condição para as atividades humanas. Exemplos incluem prédios, ruas e calçadas; sistemas de transporte; praças, parques e outros espaços verdes; bairros, cidades e toda a infra-estrutura de suporte, como redes de esgoto e de energia.

Embora este seja um conceitos amplos e que possui aplicações específicas em diferentes áreas do conhecimento e da atividade humana, é sabido que características do ambiente construído afetam os níveis de atividade física de uma população. A presença de calçadas amplas e seguras, de ambientes verdes e esteticamente prazerosos e proximidade com ciclovias e parques públicos favorecem a mobilidade urbana e a prática de atividade física, seja de transporte ou de lazer. Por outro lado, ambientes pobres em áreas verdes, com calçadas estreitas e/ou mal pavimentadas, baixa iluminação e com alta circulação de carros e poluição afastam as pessoas da atividade física.

Nas últimas décadas, em muitas cidades do mundo o poder público tem agido de forma a construir uma infra-estrutura que favoreça a mobilidade urbana e a prática de atividade física.  Um bom exemplo nesta linha é a construção de ciclovias e o estímulo à utilização de bicicletas. Um estudo de caso interessante é o da cidade de Amsterdã, nos Países Baixos. Em Amsterdã, 58% dos adultos usam a bicicleta diariamente (sendo que em 38% esta é a principal forma de transporte) e existem cerca de 800 km de ciclovias espalhados pela cidade. Além disso, estimam-se que existam 880 mil bicicletas em Amsterdam, o que faz com que o número de bicicletas seja maior que o da prórpia população total da cidade (aproximdamente 800 mil). Além de favorecer a mobilidade urbana sustentável, a prática do ciclismo trás inúmeros benefícios de saúde aos holandeses. Estima-se que o ciclismo previna 6500 mortes por ano e que promova o aumento da expectativa de vida em 1,5 anos entre todos os holandeses.

Com a pandemia do COVID-19, muitas cidades europeias também passaram a estimular o ciclismo para evitar a aglomeração de pessoas nos metrôs e ônibus. É possível que estas políticas públicas tragam beneficios de saúde adicionais ao controle da pandemia. Em um momento em que as pessoas estão sendo orientadas a não se aglomerarem em locais fechados, é possível que aspectos da infra-estrutura urbana passam a ser repensados de forma a favorecer a prática de atividades físicas no ambiente externo.

Exercícios de alta complexidade no tratamento da doença de Parkinson

A doença de Parkinson é uma doença neurodegenerativa progressiva que afeta o movimento e que é caracterizada pela presença de tremores nos membros, rigidez e dificuldades na marcha, e perda do equilíbrio e da coordenação motora. Pacientes com esta doença também podem apresentar outros sintomas como depressão, distúrbios do sono e disfunção urinária.

Embora não exista cura para a doença de Parkinson, o tratamento medicamentoso é eficaz em reduzir os principais sintomas e melhorar a qualidade de vida, retardando a progressão da doença. Outras terapêuticas envolvem a terapia de estimulação cerebral profunda e a realização de fisioterapia e terapia ocupacional. Recentemente, tem sido demonstrado que a prática de exercícios físicos também possui um papel importante no tratamento desta doença. Particularmente, exercícios complexos que combinam diferentes capacidades motoras (ex: agachar e levantar em uma plataforma instável, exercícios na bola de pilates) ou exercícios que combinam demandas físicas e cognitivas parecem produzir diversos benefícios para esta população.

Uma série de trabalhos conduzidos pelo grupo da Dra. Carla da Silva Batista (Escola de Educação Física e Esporte da USP) tem demonstrado que protocolos de treinamento com alta complexidade motora promovem aumento da força muscular e da mobilidade, e melhora da função cognitiva, do equilíbrio e da qualidade de vida nesta população. Em um dos trabalhos mais recentes deste grupo, foi verificado que o treinamento com alta complexidade motora reduziu em 60% a ocorrência do congelamento da marcha (ou “freezing” em inglês) e em 70% os sintomas motores da doença. Ainda neste estudo, foi verificado que o treinamento físico promoveu uma melhora funcional em áreas do cérebro relacionadas ao controle do movimento.

Por conta de todos os benefícios apontados acima, o treinamento físico com alta complexidade deve ser estimulado para este tipo de paciente. No entanto isto deve ser implementado de maneira progressiva, começando com exercícios mais simples e que envolvam apenas uma tarefa, e progredindo gradativamente para exercícios mais complexos e de dupla tarefa. A supervisão de profissionais treinados é fundamental para o sucesso da terapêutica.

Tiago Peçanha, Consultor da Clínica Move – Profissional de Educação Física. Pesquisador e Pós-doutorando do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da USP. Pós-doutorando no Research Institute for Sport and Exercise Sciences da Liverpool John Moores University, UK.

Contato: pecanhatiago@gmail.com      Twitter: https://twitter.com/tiagopecanha

Dez Fatos sobre a Dor Lombar

O isolamento social fez com que ficássemos um período muito maior em casa, e por isso a nossa rotina foi alterada. Deixamos de ir ao trabalho e iniciamos o home office, isso gerou mudanças no ambiente de trabalho, diminuímos a prática de atividade física, e ficamos expostos a uma carga emocional gerada por toda essa situação.

A dor lombar é uma condição que pode atingir até 65% das pessoas anualmente, e 84% das pessoas em algum momento da vida terão dor lombar.  Será que essas mudanças causadas pelo isolamento físico podem aumentar o risco de dor na lombar?

Para ajudar nessa resposta, o British Journal of Sports Medicine, fez um recente editorial, relatando 10 fatos sobre a dor lombar e desmitificando algumas crenças. Vamos lá para os fatos:

 

  • A dor lombar persistente é uma situação angustiante, mas raramente fatal e dificilmente irá te deixar em uma cadeira de rodas. Sendo assim, não é uma condição que ameace a sua vida.

 

  • Envelhecer não causa dor lombar e, embora exista essa crença, os estudos não comprovam que a causa ou piora da dor venha com a idade, sendo que a maioria dos casos melhora com o tratamento adequado baseado em evidências.

 

  • Dor lombar persistente raramente está associada a graves danos teciduais. Sua coluna é forte! Em casos de lesões, normalmente a cicatrização ocorre em 3 meses. Caso a dor persista, temos que considerar outros fatores associados como: a pouca tolerância a dor, expectativas negativas, estresse, tensões excessivas, fadiga e falta de atividade física.

 

  • Exames de imagem raramente mostram a causa da dor lombar. O exames acabam sendo úteis somente para uma minoria de indivíduos, visto que a maioria dos achados (protuberância discais, degenerações, artroses, protusões, entre outros) são muito comuns, mas não predizem o quanto de dor a pessoa poderá sentir. As imagens podem mudar com o tempo e a maioria das hérnias tendem a regredir . Além do que, não são somente as imagens que determinarão a evolução do quadro, o quadro clinico é muito mais importante.

 

  • Dor durante exercícios físicos e movimentação não significa que você está fazendo mal para sua coluna. Nos casos de dores persistentes é comum que os músculos ao redor fiquem mais sensíveis ao toque e movimento. A dor pode estar mais relacionado a esse aumento da sensibilidade, do que realmente ao grau de lesão. Então é normal e seguro sentir dor ao começar se movimentar e exercitar. Lembrando que o exercício e a movimentação de forma gradativa em todas as direções são as maneiras mais eficazes e saudáveis para o manejo da dor lombar.

 

  • Dor lombar não é causada por uma má postura. A maneira que sentamos, levantamos ou dobramos a coluna não geram dor lombar. Na verdade, a variação de posições é salutar para sua coluna.

 

  • A dor lombar não é causada por que o seu CORE está fraco. Musculatura do CORE fraca, não causa dor lombar. O que ocorre frequentemente em pessoas com dor lombar, é um aumento da tensão na musculatura do CORE, como uma resposta natural de proteção. Embora seja importante manter a musculatura do tronco forte e ativa, o seu relaxamento também pode ser útil no manejo do quadro.

 

  • A coluna não desgasta com carga e movimentos diários. Da mesma maneira que exercícios de levantamento de peso deixam seu músculo mais forte, movimento e cargas controladas sobre a sua coluna podem deixá-la mais forte e saudável criando resiliência estrutural. Então atividades como correr, girar e curvar-se podem ser feitas de maneira graduais e regulares.

 

  • Crises de dor não significa que você está se machucando. As crises de dor, frequentemente, não estão relacionadas a danos teciduais. Essas crises estão mais relacionadas com alguns fatores gatilhos como: estresse, atividades não corriqueiras, tensão, pouco sono, preocupação ou variações no humor. Mantenha-se calmo, relaxado e ativo.

 

  • Injeções, cirurgias e alguns medicamentos, geralmente não são a cura. Esses tipos de tratamento a longo prazo não são muito eficazes para o tratamento da dor, além de apresentarem alguns riscos e efeitos adversos. O tratamento eficaz é relativamente barato, seguro e inclui estratégias que abordem a otimização dos aspectos físicos e mentais do indivíduo (atividade e exercícios físicos, hábitos saudáveis de sono, controle do peso corporal, atividades sociais).

 

 

Nesse texto foram abordados diversos temas “polêmicos” e nada melhor do que conversar com seu fisioterapeuta ou seu médico para tirar eventuais dúvidas ou postar aqui para que possamos ajudá-los a esclarecer.

#keepmoving   

 

Tiago Alves Bozzo

Fisioterapeuta da Clínica Move

 

Referências:

 

https://bjsm.bmj.com/content/54/12/698

https://www.scielo.br/pdf/csp/v31n6/0102-311X-csp-31-6-1141.pdf

Como manter o peso e a saúde cardiovascular em tempos de Isolamento Físico?

Recentemente um autor reconhecido por suas considerações na área de nutrição e exercício físico, publicou algumas orientações para evitar o ganho de peso e manter a boa saúde cardiovascular durante esse período de pandemia. Esse período se caracterizou pela redução  do gasto energético, aumento do consumo de alimentos calóricos e alterações  na nossa rotina de sono. A chave para uma boa saúde metabólica está na alimentação, na prática regular de exercícios físicos e na qualidade do sono.       Algumas orientações sugeridas por ele para a nova rotina em relação a esses aspectos tão fundamentais para nossa saúde:

Alimentação: As intervenções visam diminuir o consumo de calorias diárias, buscando balancear a energia consumida e gasta para a manutenção do peso. Uma estratégia sugerida é diminuir o tempo entre a primeira e a última refeição dia. Essa intervenção é chamada de restrição de tempo para comer. Essa estratégia visa diminuir o tempo da janela de alimentação, do habitual 12 a 14 horas para 8 a 10 horas por dia. Por exemplo: fazendo a primeira refeição as 10:00 horas e a última às 20:00 horas. É importante lembrar que o conteúdo e a quantidade de alimentos são fundamentais, quando pensamos em saúde alimentar. Atenção especial deve ser dada a ingestão proteica, importante para manter a massa magra e dar a sensação de saciedade. O consumo sugerido é de aproximadamente 1,2 g/kg de proteína por dia, distribuindo cerca de 20 a 25 gramas por refeição ao longo do dia.

 

Exercícios Físicos: O objetivo principal é diminuir o tempo sentado e aumentar o gasto de energia diário. Para aqueles que já têm o hábito de se exercitar é sugerido um treino no modelo High Intensity Training (HIT), que são exercícios de “sprints” que duram de 30 segundos até 2 minutos, intercalados com 1 a 3 minutos de intervalo (repouso ou baixa intensidade) entre os sprints, com duração total de cerca de 30 minutos. Para evitar a perda de massa magra os exercícios de força muscular são essenciais, mesmo aqueles realizados com o peso do próprio corpo têm eficácia na sinalização da síntese proteica, e manutenção da massa livre de gordura. Para aqueles que não praticam exercícios físicos de forma regular são sugeridos “snacks” de exercício distribuídos ao longo do dia, como por exemplo, levantar entre uma reunião on-line e outra e praticar de 5 a 7 minutos de exercício.  Mesmo em pequenas porções os exercícios físicos garantem manutenção da saúde cardíaca e ajudam no balanço energético, evitando ganho de peso indesejado.

 

Sono: A intenção é otimizar a qualidade do sono, realinhando o ritmo circadiano e evitando as alterações metabólicas e no humor, que são causadas por uma noite mal dormida. É sugerido manter uma rotina de sono com horários certos para dormir e acordar; se expor a luz natural durante o dia e principalmente pela manhã. Evitar cochilos durante o dia e, caso aconteçam, que tenham duração máxima de 40 minutos e antes das 15:00 horas. A noite evitar alimentos estimulantes como a cafeína e os estímulos luminosos da televisão, tablets e smartphones.

As mudanças de comportamento impostas pelo atual cenário de saúde mundial afetaram o bem estar e saúde de todos nós e agravaram outras “pandemias” que antes já traziam muito prejuízo ao sistema de saúde e aos indivíduos como a obesidade e a inatividade física. Não é o momento de dietas restritivas e exercícios ao ar livre, mas algumas poucas mudanças na rotina de isolamento, mesmo dentro de casa, trazem muitos benefícios de saúde e bem-estar comprovados cientificamente.

 

Dra. Julia Canali

Dra. Natalia Guardieiro

Médicas do Exercício e Esporte da Clínica Move

 

Fonte: Andy J. King, Louise M. Burke, Shona L Halson, John A. Hawley. The Challenge of Maintaining Metabolic Health During a Global Pandemic. Sports Medicine, may 2020.

Tomar café da manhã como rei e jantar como plebeu?

Você já deve ter ouvido falar da famosa orientação: “Tome café da manhã como um rei, almoce como um príncipe e jante como um plebeu”. Pois bem, a questão das alterações ao longo do dia da termogênese (gasto energético) induzida pela dieta ainda é muito debatida na literatura, mas um recente artigo publicado no Journal of Clinical Endocrinology and Metabology trouxe interessantes resultados. Se trata de um estudo com poucos pacientes, mas com um rigor metodológico louvável.

Os pesquisadores selecionaram 16 participantes do sexo masculino (mulheres foram excluídas, para evitar influência do ciclo menstrual), na terceira década de vida e com índice de massa corpórea normal. Os participantes não podiam estar em uso de qualquer medicação, nem ter realizado restrição alimentar nos últimos seis meses, não possuírem doenças agudas ou crônicas, DM2 em parente de primeiro grau, tabagismo, etilismo, nem serem plantonistas e atletas de competição.

Cada participante passou por duas temporadas de três dias seguidos em laboratório: em um primeiro momento, receberam café da manhã hipercalórico e jantar hipocalórico e no outro, café da manhã hipocalórico e jantar hipercalórico. As refeições hipercalóricas correspondiam a 69% do gasto energético total de cada indivíduo; e as hipocalóricas, apenas 11%. A termogênese foi medida através de calorimetria indireta antes e após as refeições, além da avaliação de parâmetros do metabolismo da glicose e avaliação de fome e apetite através de escalas.

O consumo idêntico de calorias levou a um aumento estatisticamente relevante da termogênese induzida pela dieta 2,5 vezes maior pela manhã do que à noite, após refeições com altas e baixas calorias. O aumento induzido por alimentos das concentrações de glicose e insulina no sangue foi mais baixo após o café da manhã em comparação com o jantar. Além disso, o café da manhã com baixas calorias aumentou a sensação de fome, especificamente o apetite por doces, ao longo do dia.

Ou seja: o gasto energético após uma refeição é claramente mais alto pela manhã do que à noite e esse aumento é independentemente da quantidade calórica consumida; isto é, essa ritmicidade fisiológica é preservada durante a nutrição hipocalórica. E ainda, comer menos pela manhã levou ao um aumento da fome ao longo do dia. Isso é um achado importante para nossa prática clínica em pacientes que precisam perder peso ou estão em fase manutenção. Tem implicação importante também para aqueles pacientes que optaram pelo jejum intermitente e tendem a omitir o café da manhã ao invés do jantar; aparentemente a estratégia contrária teria melhor resultado. Além disso, o resultado de que os picos de glicemia e insulina são menores pela manhã, também são importantes para o acompanhamento de pacientes diabéticos e com pré-diabetes.

Alguns estudos anteriores já haviam sugerido que pessoas que consomem café da manhã tendem a ter uma melhor dieta ao longo do dia e que a estratégia de pular o café da manhã pode levar a um consumo compensatório ao longo do dia.

Parece que a ciência corroborou o ditado popular hein? E você, tem o costume de tomar um café da manhã ?

É sempre bom lembrar que cada indivíduo é único e as estratégias para perda e manutenção de peso devem ser ajustadas de acordo com o perfil e preferências do paciente!

Procure um endocrinologista!

Dra. Mirela Miranda

Endocrinologista da Clínica Move

 

Referência: Juliane Richter, Nina Herzog, Simon Janka, Thalke Baumann, Alina Kistenmacher, Kerstin M Oltmanns, Twice as High Diet-Induced Thermogenesis After Breakfast vs Dinner On High-Calorie as Well as Low-Calorie Meals,The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, Volume 105, Issue 3, March 2020, Pages e211–e221,https://doi.org/10.1210/clinem/dgz311

Guias para o retorno a prática de esportes olímpicos e paralímpicos

A Clinica Move parabeniza os Dra. Felipe Hardt e Marcelo Machado pela participação na elaboração dos guias para o retorno a prática de esportes olímpicos e paralímpicos. Confira os materiais abaixo:

  1. RETORNO ATIVIDADES CPB (Marcelo Machado): clique aqui
  2. GUIA PARA A PRÁTICA DE ESPORTES OLÍMPICOS NO CENÁRIO DA COVID-19 (Dr. Felipe Hardt): clique aqui

 

Tenho uma doença crônica endocrinológica, sou do grupo de risco para casos graves do COVID-19?

Diabetes: Pacientes com diabetes, especialmente os com mau controle glicêmico, encontram-se no grupo de risco de maior gravidade. A hiperglicemia crônica prejudica o funcionamento adequado do sistema imunológico e leva a um estado pró-inflamatório que predispõe a maior gravidade da doença. Não há motivo para pânico, mantenha seu tratamento, faça controle rigoroso da glicemia e contate seu endocrinologista para ajustes no tratamento.
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Obesidade: Também está associada a maior gravidade. O tecido adiposo é produtor de substâncias pró-inflamatórias que podem estar relacionadas a uma resposta exacerbada à infecção pelo vírus. Se você já está em tratamento, mantenha-o e contato com seu endocrinologista para estabelecer boas estratégias de manter a perda de peso durante a pandemia. Se ainda não está em tratamento, não espere até o fim da pandemia para buscar acompanhamento. Diversos médicos estão atendendo com todas as medidas de segurança e até via telemedicina.
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Tireoide: Pacientes com hipo ou hipertireoidismo em tratamento adequado e bom controle hormonal não estão no grupo de risco. Apesar da Doença de Hashimoto e Doença de Graves serem doenças autoimunes, elas não prejudicam a resposta do corpo à infecção pelo vírus. Os pacientes que fazem uso de medicações para o hipertireoidismo devem comunicar imediatamente seu médico em caso de febre, pois em casos muito raros essas medicações podem diminuir o número de células de defesa (leucócitos). Nódulos tireoidianos não comprometem em nada a imunidade e a resposta do corpo à infecção. Pacientes em tratamento, devem manter suas medicações e manter contato com seu endocrinologista para acompanhamento do tratamento.
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Insuficiência adrenal: Pacientes com insuficiência adrenal, independente da causa, devem manter sua reposição hormonal de glicocorticoide. Por se tratar de uma dose de reposição fisiológica, ou seja, doses de corticoides próximas da produção diária de cortisol pelas adrenais, não compromete sua imunidade e não deve, sob hipótese alguma, ser interrompida. Em caso de infecção, a dose de estresse deve ser administrada conforme orientação do seu endocrinologista.
Em caso de dúvidas, contate o endocrinologista.

Dra. Mirela Miranda
Médica Endocrinologista da Clínica Move

Inatividade física e risco cardiovascular: reflexões para a quarentena

A doença do coronavírus 2019 (COVID-19) é uma doença infecciosa e com proporções pandêmicas, já tendo acometido mais do que 3 milhões de pessoas no mundo. A ausência de medidas preventivas ou terapêuticas específicas, em conjunto com a alta taxa de tranmissão do vírus, tem levado a recomendação de que todos os indivíduos devem permanecer em casa e procurar manter o distanciamento social. Por conter a transmissão do vírus, esta estratégia reduz a pressão sobre os sistemas de saúde, levando a um melhor manejo e controle do COVID-19. No entanto, esta estratégia trás importantes repercussões comportamentais e clínicas.

O isolamento social tende a causar profunda redução nos níveis de atividade física moderada a vigorosa. De fato, recentemente a Fitbit Inc., uma compania norte americana que desenvolve equipamentos (do tipo wearable) para monitorar o nível de atividade física, divulgou dados de atividade física de 30 milhões de usuários de todo o mundo, demonstrando redução expressiva (de 7 a 38%) no número de passos diários, entre os dias 16 e 22 de Março de 2020. Essa redução no nível de atividade física causada pelas medidas de controle do COVID-19 pode trazer repercussões substanciais pro sistema cardiovascular.

Desde a década de 50 já se sabe que a inatividade física está associada ao aumento dos riscos cardiovasculares. Naquela época, estudos clássicos conduzidos na Inglaterra verificaram maior mortalidade cardiovascular em profissões “inativas” (ex: motorista de ônibus ou trabalhadores de escritório) em comparação a profissões “mais ativas” (ex: carteiros ou cobradores de ônibus que subiam e desciam as escadas dos ônibus de 2 andares de Londres). Mais recentemente, este entendimento foi aprimorado por meio de estudos que observaram que poucos dias de inatividade física já são capazes de promover alterações negativas na função contrátil do coração, remodelamento dos vasos e piora dos marcadores de risco cardiovascilar. Com o tempo, esses efeitos se somam, pavimentando o caminho para a instalação das doenças cardiovasculares.

Dada a relação entre inatividade física e risco cardiovascular, é de extrema importância que a população tente aumentar o seu nível de atividade física durante o período de quarentena. Isto é possível por meio da realização de atividades físicas no ambiente domiciliar. Diversos estudos tem demonstrando o benefício de atividades simples, tais como caminhar em casa, pedalar em bicicleta ergométrica, subir escadas, dançar, realizar exercícios com o peso do corpo, dentre outras, sobre o condicionamento físico, a saúde geral e cardiovascular. Estas atividades devem ser realizadas por toda a população, desde crianças e adolescentes, até adultos e idosos. Nas pessoas que tenham risco cardiovascular aumentado, isto deve ser feito de maneira

mais branda e progressiva, e sempre com atenção aos sinais do corpo.

Prof. Dr. Tiago Peçanha – Profissional de Educação Física. Pesquisador e Pós-doutorando do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da USP.

Pós-doutorando no Research Institute for Sport and Exercise Sciences da Liverpool John Moores University, UK.

Consultor da Clínica Move

Contato: pecanhatiago@gmail.com  Twitter: https://twitter.com/tiagopecanha

COVID19 – Recomendações para Diabéticos

• Mantenha um bom controle glicêmico: Tome regularmente suas medicações (se faz uso de pioglitazona, converse com seu endocrinologista). Faça um controle mais rigoroso da glicemia em domicílio e comunique seu médico sobre variações para que ajustes no tratamento sejam feitos rapidamente. Mantenha uma dieta balanceada, com alimentos in natura, nutritivos e com baixo índice glicêmico (frutas, legumes, cereais integrais…) e mantenha-se ativo (tente manter uma rotina de exercícios físicos em casa). Hidrate-se bem, tenha boa noite de sono de 7 a 8h e evite estresse emocional. Assim você evita grandes variações glicêmicas e mantém sua imunidade forte.
• Mantenha sua carteira de vacinação em dia, sobretudo a vacina contra influenza que deve ser anual e contra pneumococo que deve ser uma a duas doses a depender da idade. Consulte seu endocrinologista. A presença de infecções secundárias junto a Covid-19 também aumenta gravidade.
• Se faz uso de inibidores de enzima conversora de angiotensina (iECA) e os bloqueadores de receptores de angiotensina (BRA), não suspenda por conta própria. O beneficio a longo prazo dessas medicações parece superar o malefício em relação a infecção pelo COVID-19. Converse com seu médico.
• A Sociedade Brasileira de Diabetes não recomenda a compra para estoque de insumos para diabetes tais como insulinas, canetas, cateteres ou cânulas de bomba pelo receio de falta de materiais justificado por alguns pacientes.
• Também não há recomendação de qualquer tratamento para “aumentar a imunidade”, como infusão endovenosa de “soros vitaminados”. Em caso de qualquer dúvida, contate seu médico de confiança.
• Respeite as orientações para inibir a propagação do vírus: evite aglomerações, lave as mãos com frequência, use álcool gel quando lavar não for possível, não compartilhe utensílios domésticos e de uso pessoal, mantenha o distanciamento social.
• Em caso de sintomas suspeitos, contate seu médico o quanto antes. A grande maioria dos casos poderá ser manejada em casa, mantendo as medicações para o diabetes, hidratação adequada, repouso e controle rigoroso da glicemia. É possível que na vigência de infecção seja necessário o ajuste das medicações para melhor controle do diabetes. Pacientes com diabetes tipo 1 devem estar especialmente atentos ao risco de cetoacidose em situações de infecção. Em caso de sintomas respiratórios graves como falta de ar, procure atendimento de urgência e comunique prontamente sua condição clínica de diabético.
Em caso de quaisquer dúvida, procure um endocrinologista de confiança!
Dra. Mirela Miranda
Endocrinologista da Clínica Move

Diabetes e COVID-19

A medida que a pandemia pelo coronavírus vem se espalhando pelo mundo, as informações sobre a doença vão sendo divulgadas. É bom ressaltar que ainda se trata de um território incerto e embora muitos estudos estejam sendo publicados, os profissionais de saúde devem ponderar com muito cuidado como essas informações devem afetar sua prática médica e cuidado com os seus pacientes.
Houve repercussão mundial o artigo publicado em 11 de março pelo periódico The Lancet sobre três estudos que sugerem relação entre taxas de mortalidade 2 a 3x maiores em pacientes com comorbidades como diabetes e hipertensão, e com o uso de algumas medicações como ibuprofeno e alguns anti-hipertensivos.
O aspecto focado é o aumento da enzima conversora de angiotensina 2 (ECA2). Propõe-se que o vírus utiliza essa enzima, expressa nas células pulmonares, para ligar-se a células-alvo humanas e por isso, níveis elevados de ECA2 seriam causa da maior gravidade da infecção.
O estudo sugere que pacientes diabéticos e hipertensos em tratamento com fármacos como os inibidores de enzima conversora de angiotensina (iECA) e os bloqueadores de receptores de angiotensina (BRA), assim como em uso de tiazolidinodionas (pioglitazona) e de ibuprofeno apresentam elevação dos níveis da ECA-2 e por isso maior risco de gravidade pela COVID-19.

Frente a essa discussão gostaria de ressaltar alguns fatos importantes:

– Embora seja um vírus de alta transmissibilidade, a letalidade pela doença ainda é baixa e a grande maioria das pessoas tem sintomas leves e se recuperam em casa. O principal a se fazer é combater a transmissão do vírus.

– Os estudos até o momento publicados são baseados em associações epidemiológicas e plausibilidade biológica. Como não há estudos clínicos randomizados, as evidências científicas ainda não são tão fortes. Os estudos mostraram maior mortalidade em pacientes idosos, cardiopatas, hipertensos e diabéticos. Sabemos que essas condições clínicas se sobrepõem em vários pacientes, ficando difícil estabelecer o peso de cada uma na gravidade da doença. Além disso, não foi esclarecido como eram os controles glicêmicos desses pacientes previamente à infecção.

– Em geral, os pacientes com diabetes, especialmente aqueles cuja doença não é bem controlada, podem ser mais suscetíveis a infecções mais comuns, como influenza e pneumonia, possivelmente porque a hiperglicemia pode prejudicar a imunidade por alterar a função dos glóbulos brancos. É tanto que existem indicações específicas de imunizações para pacientes diabéticos. Um fator importante em qualquer forma de infecção nesses pacientes são os seus níveis glicêmicos. Um bom controle da glicose é fundamental para reduzir o risco e a gravidade de qualquer infecção. Sendo assim, acredita-se que as pessoas com diabetes vulneráveis e que provavelmente terão desfechos piores se contraírem COVID-19 são aquelas com longa história de diabetes, mau controle metabólico, presença de complicações e doenças concomitantes e especialmente os idosos (>60 anos), independentemente do tipo de diabetes. O risco de complicações na pessoa com diabetes bem controlado é menor, tanto para o diabetes tipo 1 quanto para o tipo 2.

Dra. Mirela Miranda
Endocrinologista da Clínica Move

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