Lesões mais comuns no Ciclismo

Para entender a epidemiologia das lesões no ciclismo, é importante ressaltar alguns pontos. O ciclismo é um esporte que implica em alta velocidade (exigindo reflexos rápidos), presença de obstáculos e curvas desafiadoras. Somando-se a isso, o equipamento de proteção utilizado é bem restrito, apenas o  capacete. Portanto, temos uma combinação que favorece  lesões traumáticas. Na outra ponta, trata-se de um esporte aeróbio que se caracteriza por um gesto esportivo de repetição (pedalar) e de estabilização com uma total integração com um equipamento em cadeia fechada (bicicleta).

As lesões traumáticas são mais frequentes no atleta profissional, até porque o tempo na bicicleta e o risco a que ele se submete é maior. No entanto, nas lesões por overuse, como já é visto na maioria dos esportes, há uma inversão desse padrão, e o risco é muito maior nos atletas recreativos.

            Do ponto de vista anatômico, as lesões traumáticas afetam predominantemente a membros superiores e cabeça.  As mais comuns são as erosões por raspagem no asfalto, as contusões e o traumatismo crânioencefálico (TCE). Vale ressaltar que com a introdução do uso do capacete  houve uma redução significativa da gravidade, tempo de internação nas Unidades de Terapia Intensiva  e óbitos relacionados ao TCE.

            As lesões por overuse são  mais comuns em coluna lombosacra e membros inferiores.

Uma vez que  as lesões por overuse podem ser prevenidas,  é fundamental que o médico do esporte identifique os fatores de risco da lesão, e assim, diminua o risco do retorno da lesão. E quais são esses fatores? 

  • O histórico de lesões prévias
  • A idade do atleta
  • O aporte energético
  • E principalmente a integração da biomecânica do ciclista com o equipamento (que no meio é conhecido como bike fit).

Talvez o fator mais marcante em lesões por overuse seja a má administração do volume de treino ou o chamado erro de treinamento. O que é isso? Trata-se do desequilíbrio  entre a carga aguda (aquela que aconteceu nos últimos 7 dias) com a carga cumulativa  (das últimas 4 – 8 semanas). Uma introdução abrupta de cargas agudas grandes pode gerar um desequilíbrio e deixar o atleta predisposto a lesões.

Em termos de localização anatômica, o joelho é o mais afetado por overuse em ciclista, sejam os recreativos ou olímpicos, principalmente na região anterior (patela), isso ocorre pelo  movimento de flexo-extensão constante imposto pelo ato de pedalar.

            A dor na coluna lombosacra pode acontecer em função do tempo prolongado na bicicleta, principalmente  em ciclistas que tenham uma disfunção  de controle motor da flexão e estabilização lombar.

            Nos  pontos específicos de contato com a bicicleta, há um risco maior também de lesão por overuse. Os 3 pontos são o guidão, o pedal  e o selim.  O posicionamento inadequado do punho no guidão pode gerar uma compressão no nervo ulnar, levando a sintomas de formigamento e dormência nos dedos. O mesmo padrão pode acometer nos nervos interdigitais dos pés, em sofrimento por  uma sapatilha apertada ou taco mal posicionado.   Por fim, o contato prolongado de um selim de tamanho inadequado ou mal angulado pode gerar sintomas de atrito na região da virilha, promovendo foliculites ou erosões, bem como, uma compressão do nervo pudendo, gerando um adormecimento da região perineal.

Embora seja um esporte que produza lesões traumáticas e por overuse, vale reafirmar que de longe, a sua prática adequada pode gerar mais benefícios a longo prazo do que riscos, como aumento da longevidade, diminuição de riscos de doenças crônicas como obesidade, diabetes e doenças cardiovasculares.

 

Dra. Fernanda Rodrigues Lima
Reumatologista e Médica do Esporte da Clínica Move

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