O que é Mindful Eating?

MIndful Eating e a evolução dos guias alimentares: a importância da orientação, do conhecimento aplicado e do auto-conhecimento no tratamento e prevenção de doenças.

Uma definição simples de comer consciente é comer com intenção e atenção, ou comer com propósito e consciência. A atenção plena (mindfulness) ensina os indivíduos a concentrar sua intenção e atenção no que está acontecendo no momento presente, o que, por sua vez, os ajuda a desvincular-se dos hábitos e comportamentos habituais (piloto-automático), insatisfatórios e inadequados. O Mindful Eating (comer consciente) surge como uma abordagem que engloba vários aspectos relacionados direta ou indiretamente com a alimentação, como a compulsão alimentar e outros transtornos, diabetes e obesidade e outras doenças crônicas não transmissíveis, ajudando a prevenir, identificar e resolver questões sobre alimentação inadequada e outros problemas que impactam diretamente na saúde do indivíduo.

A Organização Mundial da Saúde – OMS (2014) recomenda, por meio da Estratégia Global para a Promoção da Alimentação Saudável, Atividade Física e Saúde, que os governos formulem e atualizem periodicamente diretrizes nacionais sobre alimentação e nutrição, levando em conta mudanças nos hábitos alimentares e nas condições de saúde da população e o progresso no conhecimento científico. Essas diretrizes têm como propósito apoiar a educação alimentar e nutricional e subsidiar políticas e programas nacionais de alimentação e nutrição. A elaboração de guias alimentares insere-se no conjunto de diversas ações intersetoriais que têm como objetivo melhorar os padrões de alimentação e nutrição da população e contribuir para a promoção da saúde. Neste sentido, a OMS propõe que os governos forneçam informações à população para facilitar a adoção de escolhas alimentares mais saudáveis em uma linguagem que seja compreendida por todas as pessoas e que leve em conta a cultura local.

O Brasil passou, assim como em outros países, nas últimas décadas, por diversas mudanças políticas, econômicas, sociais e culturais que evidenciaram transformações no modo e estilo de vida da população. A ampliação de políticas sociais na área de saúde, educação, trabalho e emprego e assistência social contribuiu para a redução das desigualdades sociais e permitiu que o País crescesse de forma inclusiva. Também se observou rápida transição demográfica, epidemiológica e nutricional, apresentando como consequência maior expectativa de vida e redução do número de filhos por mulher, além de mudanças importantes no padrão de saúde e consumo alimentar da população brasileira. As principais doenças que atualmente acometem os brasileiros deixaram de ser agudas e passaram a ser crônicas (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2014).

Frente a esse cenário, O Novo Guia Alimentar para a População Brasileira, lançado em 2014, apresentou um conjunto de informações e recomendações sobre alimentação com foco na promoção da saúde, destacando as formas pelas quais os alimentos são produzidos e distribuídos, privilegiando aqueles cuja produção e distribuição seja socialmente e ambientalmente sustentável como os alimentos orgânicos e de base agroecológica, e também busca valorizar a culinária, indicando o planejamento e preparação das refeições e a interação social, com o envolvimento de amigos e família na em todas as etapas do ato de se alimentar: desde a compra e escolha dos ingredientes até a refeição em si.

O Guia Alimentar para a População Brasileira, publicado em 2006, apresentou as primeiras diretrizes alimentares oficiais para a nossa população. Diante das transformações sociais vivenciadas pela sociedade brasileira, que impactaram sobre suas condições de saúde e nutrição, fez-se necessária a apresentação de novas recomendações. A segunda edição do guia passou por um processo de consulta pública, que permitiu o seu amplo debate por diversos setores da sociedade e orientou a construção da versão final, aqui apresentada. Tendo por pressupostos os direitos à saúde e à alimentação adequada e saudável, o guia é um documento oficial que aborda os princípios e as recomendações de uma alimentação adequada e saudável para a população brasileira, configurando-se como instrumento de apoio às ações de educação alimentar e nutricional no SUS e também em outros setores. Considerando os múltiplos determinantes das práticas alimentares e, a complexidade e os desafios que envolvem a conformação dos sistemas alimentares atuais, o guia alimentar reforça o compromisso do Ministério da Saúde de contribuir para o desenvolvimento de estratégias para a promoção e a realização do direito humano à alimentação adequada. (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2014)

A Pirâmide Alimentar de 2006 tinha como base o número de porções de cada tipo de alimento, classificado por grupos, compostos com alimentos semelhantes. Foi definido o número de porções diárias e calorias para cada grupo, sendo os valores das porções calculados de acordo com dietas-padrão, de 1.600kcal, 2.200 kcal e 2.800 kcal, e distribuição dos macronutrientes: carboidratos (50-60%), proteínas (10-15%), lipídios (20-30%). A quantificação dos alimentos equivalentes era uma das mais importantes ferramentas na formulação de dietas como subsídio para guias alimentares, como informativo, pois estão apresentados de forma clara, possibilitando fácil entendimento e aplicação (PHILIPPI et al., 1999).

O Novo Guia trouxe uma nova visão sobre a alimentação e todos os aspectos que envolvem o ato de se alimentar. Com novos princípios, destaca a autonomia nas escolhas, a sustentabilidade e a volta aos antigos hábitos de comprar alimentos nas feiras e hortifrutis (sacolões) e de cozinhar, preparar a refeição e fazê-la com calma, sentado à mesa. Como regra de ouro, estabelece a preferência para alimentos in natura ou minimamente processados e preparações culinárias no lugar de alimentos ultraprocessados.

Além disso, o Novo Guia trouxe também uma nova classificação para os alimentos, frente à grande variedade e quantidade que temos hoje:

  • IN NATURA: obtidos diretamente de plantas ou de animais sem que tenham sofrido qualquer alteração. Exemplos: legumes, verduras, frutas, batata, mandioca e outras raízes e tubérculos in natura ou embalados, fracionados, refrigerados ou congelados.
  • MINIMAMENTE PROCESSADOS: são alimentos in natura que, antes de sua aquisição, foram submetidos a alterações mínimas. Exemplos: arroz a granel ou embalado; grãos de trigo e de outros cereais; sucos de frutas e sucos de frutas pasteurizados e sem adição de açúcar ou outras substâncias; castanhas, nozes, amendoim e outras oleaginosas sem sal ou açúcar; ovos; chás, café, e água potável.
  • ALIMENTOS PROCESSADOS: Produtos fabricados essencialmente com a adição de sal ou açúcar a um alimento in natura ou minimamente processado. Exemplos: conservas de legumes e vegetais (preservados em salmoura ou em solução de sal e vinagre); extrato ou concentrados de tomate (com sal e ou açúcar); frutas em calda e frutas cristalizadas; enlatados; queijos; pães feitos de farinha de trigo, leveduras, água e sal.
  • ALIMENTOS ULTRAPROCESSADOS: produtos cuja fabricação envolve diversas etapas, técnicas de processamento e ingredientes, muitos deles de uso exclusivamente industrial, cujos ingredientes incluem substâncias como gordura vegetal hidrogenada, açúcar, amido, soro de leite, emulsificantes e outros aditivos. Exemplos: biscoitos, sorvetes, barras de cereal, sopas em pó, macarrão e temperos instantâneos, salgadinhos de pacote, sucos de caixinha e refrigerantes, produtos congelados, hambúrgueres e extratos de carne de frango, salsichas e outros embutidos), pães de forma.

Considerando todas essas informações e prognósticos da saúde da população, o guia traz novas referências, principalmente qualitativas, orientações para uma alimentação adequada e saudável, além de ilustrações que ajudam os indivíduos a diferenciar as novas classificações dos alimentos, escaladas de acordo com a importância na alimentação diária, e a elaborar pratos e refeições equilibradas, utilizando todos os grupos de alimentos, levando em consideração a regionalidade e cultura local de cada estado ou região do país.

Como diria Michael Pollan: “Não coma nada que sua tia-bisavó não reconheceria como alimento […] Coma alimentos, não produtos alimentícios.”
Voltamos aos antigos “padrões”, onde a qualidade da alimentação, muitas vezes, é mais importante do que a quantidade, e o cuidado com as escolhas e o estilo de vida passam a ser cada vez mais importantes para a saúde física e mental.

Camila Saviano
Nutricionista da Clínica Move

Referências:
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Guia alimentar para a população brasileira / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica. – 2. ed. – Brasília: Ministério da Saúde, 2014. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_alimentar_populacao_brasileira_2ed.pdf.
POLLAN, M. Food Rules: an Eater´s Manual. New York: Penguin Press. 2008.
PHILIPPI, S. et al. Pirâmide Alimentar Adaptada: Guia para Escolha dos Alimentos. Rev. Nutr., v. 12, n. 1, p. 65-80. Campinas. 1999. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-52731999000100006

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