Tomar café da manhã como rei e jantar como plebeu?

Você já deve ter ouvido falar da famosa orientação: “Tome café da manhã como um rei, almoce como um príncipe e jante como um plebeu”. Pois bem, a questão das alterações ao longo do dia da termogênese (gasto energético) induzida pela dieta ainda é muito debatida na literatura, mas um recente artigo publicado no Journal of Clinical Endocrinology and Metabology trouxe interessantes resultados. Se trata de um estudo com poucos pacientes, mas com um rigor metodológico louvável.

Os pesquisadores selecionaram 16 participantes do sexo masculino (mulheres foram excluídas, para evitar influência do ciclo menstrual), na terceira década de vida e com índice de massa corpórea normal. Os participantes não podiam estar em uso de qualquer medicação, nem ter realizado restrição alimentar nos últimos seis meses, não possuírem doenças agudas ou crônicas, DM2 em parente de primeiro grau, tabagismo, etilismo, nem serem plantonistas e atletas de competição.

Cada participante passou por duas temporadas de três dias seguidos em laboratório: em um primeiro momento, receberam café da manhã hipercalórico e jantar hipocalórico e no outro, café da manhã hipocalórico e jantar hipercalórico. As refeições hipercalóricas correspondiam a 69% do gasto energético total de cada indivíduo; e as hipocalóricas, apenas 11%. A termogênese foi medida através de calorimetria indireta antes e após as refeições, além da avaliação de parâmetros do metabolismo da glicose e avaliação de fome e apetite através de escalas.

O consumo idêntico de calorias levou a um aumento estatisticamente relevante da termogênese induzida pela dieta 2,5 vezes maior pela manhã do que à noite, após refeições com altas e baixas calorias. O aumento induzido por alimentos das concentrações de glicose e insulina no sangue foi mais baixo após o café da manhã em comparação com o jantar. Além disso, o café da manhã com baixas calorias aumentou a sensação de fome, especificamente o apetite por doces, ao longo do dia.

Ou seja: o gasto energético após uma refeição é claramente mais alto pela manhã do que à noite e esse aumento é independentemente da quantidade calórica consumida; isto é, essa ritmicidade fisiológica é preservada durante a nutrição hipocalórica. E ainda, comer menos pela manhã levou ao um aumento da fome ao longo do dia. Isso é um achado importante para nossa prática clínica em pacientes que precisam perder peso ou estão em fase manutenção. Tem implicação importante também para aqueles pacientes que optaram pelo jejum intermitente e tendem a omitir o café da manhã ao invés do jantar; aparentemente a estratégia contrária teria melhor resultado. Além disso, o resultado de que os picos de glicemia e insulina são menores pela manhã, também são importantes para o acompanhamento de pacientes diabéticos e com pré-diabetes.

Alguns estudos anteriores já haviam sugerido que pessoas que consomem café da manhã tendem a ter uma melhor dieta ao longo do dia e que a estratégia de pular o café da manhã pode levar a um consumo compensatório ao longo do dia.

Parece que a ciência corroborou o ditado popular hein? E você, tem o costume de tomar um café da manhã ?

É sempre bom lembrar que cada indivíduo é único e as estratégias para perda e manutenção de peso devem ser ajustadas de acordo com o perfil e preferências do paciente!

Procure um endocrinologista!

Dra. Mirela Miranda

Endocrinologista da Clínica Move

 

Referência: Juliane Richter, Nina Herzog, Simon Janka, Thalke Baumann, Alina Kistenmacher, Kerstin M Oltmanns, Twice as High Diet-Induced Thermogenesis After Breakfast vs Dinner On High-Calorie as Well as Low-Calorie Meals,The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, Volume 105, Issue 3, March 2020, Pages e211–e221,https://doi.org/10.1210/clinem/dgz311

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